Ela estava deitada de barriga para cima, encarando o teto, ele ouviu sua respiração rápida e agoniada quando levantou para ir ao banheiro. Foi ao banheiro, olhou-se no espelho e decidiu ir vê-la.
-Não está conseguindo dormir?- disse abrindo a porta do quarto e a fazendo pular.
-Não...
-Posso invadir seu quarto?
-Claro... contanto que não acenda as luzes, porque não quero que me veja assim. -ela chegou mais para o lado da cama e ele se sentou ali. Lhe ofereceu cobertor e como estava frio, ele aceitou.-
-Não quer que eu a veja como?
-Da forma que eu estou. -Ela se sentou e encostou a cabeça na parede, respirou fundo e ficou em silêncio pelo que pareceu uma eternidade. Ele se sentou ao seu lado. - Eu estou doente, e são todas essas pílulas que mais parecem veneno... Elas me deixam assim acabada. Não quero que me veja no meu pior estado.
O quarto não era muito grande, o menor dos três quartos do apartamento onde moravam 5 jovens, melhores amigos que se conheceram no primeiro semestre da faculdade e desde vários acontecimentos acabaram morando todos debaixo do mesmo teto. No primeiro quarto dormiam dois garotos um cursava engenharia mecânica e o outro química, no segundo quarto dormiam um estudante de psicologia e um de Administração. No último quarto ela dormia sozinha, desde que seu namorado, um estudante de Engenharia Civil, decidiu ir embora sem dizer para onde há três meses.
-Está escuro o suficiente para que eu não veja nada além de vultos, não se preocupe. - pegou na mão dela- Eu queria poder te dizer que tudo isso vai passar... -levou sua mão ao lábio e beijou- Mas eu não posso te fazer acreditar em algo que eu simplesmente não sei.
-Tá tudo bem... -Ela disse e deu um sorriso- estudantes de engenharia mecânica não tendem a saber como lidar com pessoas... eu acho. - ele sorriu, por mais que ela não enxergasse direito naquele breu, pode sentir seu sorriso.-
-É... quer ajuda para dormir?
-Eu quero. - Ele a abraçou, fazendo-a recostar sua cabeça em seu peito.- Desde quando você ajuda "a pessoa chata da casa" a dormir?- disse se lembrando de quando foi morar com eles, uma casa só de garotos... que abrigaram ela numa noite chuvosa de maio quando tinha sido despejada de seu dormitório.-
-Desde quando ela precisa.
Ele a apertou contra seu peito, e logo ela se levantou num pulo com as mãos aos lábios. Correu em direção a janela e abriu, deixando o vento gelado entrar em contato com a sua pele quente.
-Desculpa. Eu disse que não queria que me visse assim.
-Você... não precisa ter vergonha de mim. - ele se levantou e foi até a cozinha pegar um copo de água. Voltou e entregou nas mãos dela, que ainda estava na janela.
-Você bêbada é bem pior. - ambos riram.- Lembra da última vez? Aquele foi o pior PT com que eu já tive que lidar.
-Eu estava deprimida. - ela fechou a janela, colocou o copo sobre a cômoda é voltou para a cama, sentada ao lado dele.-
-E agora... como está?
-Eu estou. - voltou a se deitar no peito dele- Pensando. - e olhou para os olhos dele-
-Acho que isso é bom...
-Quero viajar.
-Ah... mais uma pessoa indo embora, não dá pra rachar o aluguel em 4, chata. -ele bagunçou o cabelo dela-
-Calma. Só nas férias. Eu quero ir para... Irlanda.
-O que vai fazer na Irlanda?
-Fugir. Eu tô cansada de todos os dias acordar, tomar aquele chá horrível e em seguida três comprimidos. Depois tomar café e mais dois comprimidos. Estudar, voltar para casa. Comer. Estudar. Remédios. Sentir falta de alguém que não tenho mais notícias... - ela solta o ar como se estivesse tudo preso em si.- Quero fugir dessa rotina infernal de infelicidade.
-Quantos dias?
-19. Amanhã quero ir na agência de viagens ver o preço direitinho.
-Se você for voltar, eu acho bom.-as mãos dele fazendo cafuné na cabeça dela a fazem se lembrar de alguns meses atrás...-
-Tem notícias dele?
-Não. -Ele para de acaricia-la - A última vez que falei com ele... Eu já te disse, ele estava na casa de uma tia no interior de Minas Gerais "Pensando".
-Idiota! -soltou sem querer- Não você... ele.
-Eu sei. Também acho. Agora vou te contar uma história de ninar.
Era uma vez uma garotinha muito especial, mas que não sabia disso. Então nunca entendia porque as coisas aconteciam justo quando ela menos esperava.
-Cadê o final feliz?
-Você é uma péssima ouvinte de histórias senhorita chata.
Ele contou história para ela, até que ela adormeceu, então deitou sua cabeça com cuidado no travesseiro macio, se levantou arrumou as cortinas. Voltou a olha-la dormindo. Passou a mão pelos seus cabelos, olhou seus olhos fechados se lembrando deles chorando algumas madrugadas na ponta esquerda do sofá, de frente para a sacada por sentir falta dele... do seu melhor amigo, namorado dela, que fugiu.
Beijou sua testa.
-Que o papai do céu abençoe seu sono, chata.
E saiu do quarto, deixando ali metade de seu coração, metade de si... e todo o seu sono. Voltou ao seu quarto, pegou seu notebook e começou a escrever mais uma canção sobre amores proibidos.