Ponteiros mostravam a redução da velocidade, aquela seria uma grande curva. Mas invés de diminuir, ele aumentou. Porque ele sempre gostou de me colocar em risco.
Quando a noite caía, e ele me levava de volta à cidade eu sempre imaginava como seria se nosso carro captasse: Fatalidade.
Nós sorrimos para as fotos, vamos à grandes festas, temos uma grande e bela casa, mas até onde vale? Um medo a cada curva, os mesmos receios são capturados naquelas fotografias. Ele só me dizia que não me faria sofrer ou chorar e que nunca faria nada que pudesse me traumatizar, e agora odeio alta velocidade.
É como se eu já soubesse, que depois de tudo isso não haverá mais nada. Ele começou dizendo coisas como "Eu odeio a forma como você lida com as coisas. Odeio os seus sapatos e esse seu cabelo. Odeio sempre que me manda parar, eu não fiquei com você porque queria uma mãe". Então enfiou o pé no acelerador, eu via o ponteiro subir e podia sentir que aquele era o fim. Desesperada, pedi para que ele parasse, ele logicamente não me deu ouvidos e continou falando.
" Para esse carro agora, eu não vou andar de carro com você nesse estado." mas ele não parou. Olhei para aquela curva como se fosse a última. Assim que vi os grandes faróis de uma enorme carreta, pude observar seus olhos arregalados. Rapidamente, quase que intuitivamente virei o volante para o meu lado ele freou, mas nesse momento ABS era nada.
Sempre amei a forma como ele era positivo e curtia viajar. Conhecemos milhares de cidades, estados e pontos turísticos. Mas seu maior defeito sempre foi querer ultrapassar regras e seguir as suas próprias, isso o tornava excêntrico, mas em três anos já havia se tornado apavorante.
O carro começou a sair fumaça, então peguei minha bolsa, joguei o blazer nos ombros, olhei no fundo de seus olhos antes de descer do carro, ele estava bem, assustado, mas bem. Desci do carro, meu salto quinze nos pés. Andei pelo acostamento sem rumo, sem razão, sem resposta.
Eu estava cansada de me livrar da morte todos os dias, de viver como um esqueleto, e de ser a epiderme da relação. De transformar desastres em macetes e ironias em elogios. Senti uma presença atrás de mim, era ele. Acendi meu cigarro, e como uma mulher traga pela primeira vez, deixei que aquilo entrasse dentro de mim, poluindo os meus pulmões e aliviando minha raiva.
"Aonde você está indo?" ele indagou, dei uma longa, quase infinita, tragada, olhei em seus olhos e disse "Para qualquer lugar que eu me sinta segura". Alí não era lugar para papear, nem hora... Era tão tarde que era quase cedo. " Aqui, no acostamento... Isso parece seguro pra você? " refleti. O que era segurança? Andar nos limites da via, beber até continuar sóbrio, seguir um bucado de leis, ter um lugar com uma grande infraestrutura para chamar de casa, ter bens materiais, ter uma boa quantia no banco, ter uma vida de aparência magnífica e invejável ou estar no acostamento às 4Am numa estrada de duas vias, cheia de curvas e árvores, e placas avisando que pode haver bichos na área. "Depende" zombei, "estou mais segura aqui do que no seu carro que vai à 250km" ele pegou no meu braço e me puxou. "Você não pode tocar em mim quando choro" joguei a bituca no chão, pisei para que apagasse qualquer resquício de fogo, "Eu não estou vendo lágrimas no seu rosto. Ande, vamos até o carro precisamos chegar em casa ainda hoje... Meu amor você sabe, amanhã temos a festa de inauguração da empresa do Macedo" minha cabeça girava, o vento era frio e comecei a imaginar que uma chuva se aproximava. Dei uma gargalhada, "Eu estou cansada, sabe?" ele pegou em minha mão, acariciou meu cabelo e disse "Vamos" no meu ouvido. "Você estava dizendo o quanto odiava as coisas que eu fazia e quem eu era há dez minutos. O que te fez me chamar de amor agora?". Acendi outro cigarro, eu precisaria de muitas pílulas quando chegasse em casa, caso eu fosse para lá. Normalmente se tem duas escolhas, nesse momento mais me parecia uma. " Eu só estava irritado, você sabe como eu sou. Vamos pro carro, o guincho já deve estar chegando".
Voltei pro carro fumando. E fumei mais dois cigarros até o guincho chegar. Quando ele finalmente chegou, coloquei os fones no ouvidos e aumentei no último volume. Ele tentou me tocar o resto da viagem, eram uns 70km, mas eu não era a vadia dele. Eu não estava ali para que ele fizesse o que quisesse comigo, eu passei a vida buscando uma pessoa que acrescentasse coisas boas em minha vida, ao invés de sugar o que eu tinha de bom e este homem parecia ser a pessoa dos meus sonhos. Como ele pode ser a pessoa dos meus sonhos tentando me matar? Isso acaba aqui.
Cheguei em casa, tirei os sapatos e fui para o meu escritório. Peguei meu cobertor e uma camiseta larga qualquer. Deitei no sofá, não antes de trancar a porta daquele imenso cômodo com todos os meus pertences. Ele bateu na porta o resto da noite, então coloquei meus fones e uma música daquelas que te encoraja a fazer grandes feitos. Fui pra janela e fumei todos os cigarros que restavam no maço. Eu precisava mudar, eu não precisava dele me dizendo ser ou não boa. Porque eu sou boa, e eu posso ser boa em várias áreas. Eu sou boa com ações e fiz ele lucrar muito, sou boa com moda, sou boa na cama eu sou boa em muitas coisas menos em fazê -lo me amar.
É preciso se bastar. Eu preciso me bastar, talvez eu precise virar sócia da empresa de cigarros ou de um transplante de pulmão em breve. Mas se eu pudesse deixa-lo, e me livrar de toda essa aparência, assim o faria. Estou exausta de correr perigo, riscos e de sentir medo do homem que divide a cama comigo. Ele bateu na porta por tanto tempo e eu não conseguia pregar os olhos. Quando me vi, Estava em seus braços a caminho da nossa cama, seu perfume era excitante e o nascer do sol na janela era instigante. E de repente, mesmo sabendo que tudo não passava de momento, me deixei levar por suas mãos que rapidamente me fizeram esquecer de toda aquela velocidade quando tocaram minhas costas me fazendo arrepiar.
Eu não era boa em fazê -lo me amar. Eu não era boa em fazer as pessoas me amarem, mas elas me invejam. É legal quando se tem poder, glória e um podium para subir todos os dias e triunfar. Dessa vez eu escolho a coroa, mas não por falta de opção.