Então eles me chamam de Senhora e usam o seu sobrenome. Não que eu seja sua propriedade, mas sim eu sou sua. Era uma festa de gala, e meu vestido era deslumbrante, assim como seu traje. Gala. Galãs.
Chegava a hora dos holofotes, então eu olhava em seus olhos, como sempre foi, segurava-lhe a mão. E nós entravamos, e sentavamos na mesa cuja placa tinha nosso sobrenome. Eu percebia a sua tensão, suas mãos inquietas sobre a mesa, junto com nossas taças, água e vinho.
Então eles anunciam seu nome e seu belo sobrenome. É hora de receber seu novo distintivo.
Aplausos. Discurso. Aplausos. Apertos de Mão. Beijo.
Mais que merecido.
Fotos. Sorrisos. Entramos em nosso robusto carro branco. Você da ré. Logo vejo a saída.
-Você estava incrível esta noite!
-Sim meu amor, nós estávamos. E estamos. Porque nada acabou ainda.
Com a câmera frontal do meu imenso celular, confiro a maquiagem. Tudo tão perfeito e calculado. Um presente tão organizado. Meus cabelos alinhados, minhas unhas incrivelmente sem cutículas e com uma francesinha impecável. Meu delineado tão contínuo e reto.
Fomos jantar. Champanhe. Comida refinada. Cartão. Braços. Carro. Porta. Música. Condomínio. Garagem. Carro. Elevador. Paletó nos braços, abro os primeiros botões da sua camisa. Nosso andar. Alto. Porta. Chave. Olhos.
Então alguém me chama. E perco-me deste tão lindo e irrelevante devaneio.
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